Sintoma: erro ou solução?


POR MARCOS BULCÃO

A palavra “sintoma” costuma soar como defeito: algo que atrapalha, que deveria ser removido, corrigido, consertado. E, no senso comum, isso faz sentido: se algo dói, incomoda ou limita, queremos eliminar.

Mas, na psicanálise, o sintoma tem um estatuto diferente.

Ele não aparece apenas como falha — aparece como resposta, como solução. Às vezes, como a melhor solução possível naquele momento, dentro daquele contexto. Pensar o sintoma como solução — como estratégia — é crucial na condução do tratamento analítico.

De fato, quando pensamos o sintoma como estratégia, tudo muda.
Muda nosso enfoque, muda nossa escuta.

Se o sintoma é visto como solução para um problema, a pergunta deixa de ser:
“O que devo fazer para eliminar o sintoma?”
e se torna:
“Que problema, na minha vida psíquica, o sintoma ajuda a resolver?”

E aqui acontece o grande salto: se o sintoma resolve um problema meu — se me ajuda a lidar com uma realidade intolerável que não consegui resolver de outro modo — então estou automaticamente implicado no sintoma. E, portanto, implicado no meu próprio sofrimento.

O contraste com a medicina (e por que isso importa)

Pense num exemplo médico simples: dor de garganta. Você vai ao médico, ele identifica a causa, prescreve um tratamento, e o objetivo é claro: eliminar o sintoma para que você retorne ao estado anterior, ao “normal”.

Na psicanálise, a coisa muda. Porque o sintoma psíquico não é só um “efeito colateral” de uma causa biológica — ele é um arranjo. Um modo de manter algum tipo de equilíbrio interno, mesmo que esse equilíbrio seja caro, limitante, sofrido.

A fobia como exemplo

Uma pessoa diz: “não consigo entrar numa loja sozinha”. Se estiver acompanhada, tudo bem. Mas, sozinha, o corpo dispara: ansiedade, suor frio, urgência de sair.

O ponto decisivo é este: o problema não é a loja. A loja não é o perigo. O perigo é aquilo que a loja desperta.

E é aqui que a pergunta muda. A psicanálise não pergunta apenas:
“Por que essa pessoa tem medo de lojas?”
Ela pergunta:
“O que esse medo impede que apareça?”

O sintoma não surge para sabotar o sujeito. Ele surge para protegê-lo — muitas vezes protegê-lo de um contato direto com algo que seria psíquica e afetivamente insuportável naquele momento: uma lembrança, uma excitação, uma culpa, um conflito.

Repare no detalhe: acompanhado, funciona; sozinho, não. Isso já diz muito. Sozinho, algo se reedita. A pessoa volta a ocupar uma posição antiga, fica exposta a algo que não consegue sustentar. O acompanhante vira um anteparo — um “amortecedor” simbólico. A própria estrutura da fobia vira um anteparo.

Então o sintoma é bom?

Não. Ele limita, empobrece, faz sofrer. Mas isso não nos impede de reconhecer que ele organiza. Ele estabiliza. Ele permite que o sujeito continue funcionando apesar do conflito.

Por isso, tentar “arrancar” o sintoma sem entender a função que ele cumpre costuma gerar um efeito conhecido: o sintoma some… e outro aparece no lugar. Porque a função — aquilo que estava sendo atendido — continua ali.

O primeiro ganho de leitura

Ler o sintoma como estratégia é o primeiro passo para deixar de repeti-lo às cegas.

Quando lemos o sintoma como estratégia, mudamos nossa escuta — do paciente e de nós mesmos. Percebemos que o sintoma não é nosso inimigo: ele tenta preservar algo crucial para nós.

E percebemos que se trata menos de eliminar cegamente o sintoma do que de ler e deslocar a estratégia que ele carrega.
E isso muda tudo.


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