Psicanálise e Teoria dos Jogos


por marcos bulcão

Por que repetimos o que nos faz sofrer?

Essa pergunta, aparentemente simples, toca um dos pontos mais enigmáticos da experiência humana. Somos capazes de reconhecer padrões que nos prejudicam — em relacionamentos, no trabalho, nos hábitos, nos modos de viver — e, ainda assim, continuamos a repeti-los. Adiamos o inevitável, sabotamos o que nos faria bem, persistimos em escolhas que nos custam caro. À primeira vista, isso parece irracional. Mas a psicanálise, desde Freud, nasceu exatamente da suspeita de que essa “irracionalidade” talvez esconda uma lógica mais profunda.

Nietzsche dizia: “Eu sou uma multidão.” A frase é mais do que uma metáfora literária. Ela aponta para algo fundamental: não somos sujeitos simples, unívocos, lineares. Somos compostos por camadas de desejo, medo, expectativa, culpa, prazer e angústia que nem sempre são compatíveis entre si. Dentro de cada um de nós existe uma espécie de congresso permanente — uma negociação contínua entre forças que querem coisas diferentes.

A grande contribuição de Freud, como observou Contardo Calligaris, foi justamente trazer à cultura a ideia de que a subjetividade humana é estruturada por conflitos internos. Não somos seres transparentes a nós mesmos. Não sabemos exatamente o que queremos, nem por que fazemos o que fazemos. Há uma parte de nós que decide, age e repete sem passar pelo crivo da consciência. É isso que Freud chamou de inconsciente.

A psicanálise, então, nos permite resolver o enigma inicial, dissolvendo o paradoxo que ele trazia.

Três premissas fundamentais

  1. Repetimos coisas que nos fazem sofrer.
  2. Somos biologicamente programados para repetir apenas aquilo que, de algum modo, nos dá prazer ou nos evita uma dor maior.
  3. Somos atravessados por múltiplos desejos e medos que entram em conflito.

Em Freud, encontramos o arcabouço conceitual para enunciar a conclusão que se impõe: quando fazemos — e repetimos — algo que nos faz sofrer, deve haver alguma outra parte de nós que ganha algo com isso.

O sintoma — aquilo que dói, que atrapalha, que nos limita — não é apenas um erro. Ele é também uma solução. Uma solução imperfeita, custosa, mas funcional.

É nesse ponto que a noção de estratégia se torna decisiva.

Um sintoma pode ser pensado como uma estratégia inconsciente de lidar com conflitos internos. Ele gera sofrimento consciente, mas protege o sujeito de algo que, naquele momento, seria ainda mais insuportável. O medo paralisante, a procrastinação, o vício, a repetição de relações destrutivas — tudo isso pode funcionar como formas de defesa, modos de manter um certo equilíbrio psíquico.

Para entender melhor esse tipo de lógica, vale recorrer a uma ferramenta que vem de outro campo: a teoria dos jogos.

A teoria dos jogos é, essencialmente, a teoria do pensamento estratégico. Ela estuda situações em que o resultado da minha ação depende da ação dos outros. Em vez de perguntar “qual é a melhor escolha em si?”, ela pergunta: “qual é a melhor escolha dada a interação entre todos os agentes envolvidos?” O que importa não é o ideal abstrato, mas os equilíbrios que podem se sustentar dentro de um sistema de interdependências.

Se trouxermos essa lógica para dentro da vida psíquica, algo interessante acontece. Os “agentes” do jogo já não são apenas pessoas externas, mas também os diferentes desejos, medos e pulsões que habitam um mesmo sujeito. O desejo de ser reconhecido, o medo de fracassar, a necessidade de agradar, o impulso de gozar, a culpa — todos esses elementos interagem entre si, competem, negociam, formam compromissos. O sintoma pode ser visto, então, como um equilíbrio estratégico entre forças internas em conflito.

Pescadores e piratas

Uma metáfora simples ajuda a visualizar isso: a história dos pescadores e dos piratas.

Imagine uma ilha composta apenas por pescadores. À primeira vista, parece uma comunidade ideal: todos trabalham, produzem o próprio sustento, ninguém depende de ninguém. O problema é que os pescadores sabem pescar, mas não sabem se defender. Quando um navio pirata aparece, a tentação é óbvia: peixe grátis. Os piratas roubam, se alimentam, e vão embora. Se forem poucos, o sistema continua funcionando. Mas se forem muitos, eles acabam destruindo a própria fonte de sustento: os pescadores morrem de fome, e todos perdem.

Essa história mostra algo crucial: tanto uma comunidade só de pescadores quanto uma só de piratas é instável. Um sistema puramente “ideal” não se sustenta, assim como um sistema puramente predatório também não. O que se forma, na prática, são equilíbrios imperfeitos: um certo número de piratas, pequeno o bastante para não destruir os pescadores, mas suficiente para alterar a dinâmica da ilha. Às vezes, esses piratas até passam a proteger a ilha contra outros piratas, criando uma espécie de compromisso estrutural.

Na psicanálise, algo semelhante ocorre. Nossas pulsões, fantasias e formas de gozo não são elimináveis. Não existe uma versão “pura” do sujeito sem conflitos, sem restos, sem sintomas. O que existe é uma margem de manobra: diferentes formas de organizar aquilo que nos atravessa. Alguns arranjos são mais destrutivos, outros mais habitáveis. Mas sempre haverá “piratas” no sistema.

Pensar o sintoma como estratégia é, portanto, abandonar a fantasia de um mundo psíquico ideal e passar a trabalhar com o que é possível. Não se trata de eliminar tudo o que causa desconforto, mas de transformar os equilíbrios que governam nossa vida. Assim como na ilha, não podemos expulsar todos os piratas — mas podemos tentar construir um arranjo em que eles não matem os pescadores de fome.

No fim, a psicanálise não promete uma vida sem conflitos, mas uma vida com mais liberdade de jogo. Uma vida em que o sujeito reconhece as estratégias que vem usando para sobreviver e, a partir daí, ganha alguma margem para escolher outras.

Talvez seja isso que significa, afinal, levar a sério a ideia de que o sintoma não é apenas um problema, mas uma resposta — uma resposta que pode, com trabalho, ser reinventada.

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