
por Marcos Bulcao
Recentemente, assisti a uma palestra sobre o início da análise. Em seguida, no debate, surgiu uma colocação que me chamou a atenção — e me causou um certo incômodo. Falava-se da responsabilização do paciente pelo próprio sofrimento. E, quase automaticamente, essa responsabilização era associada à ideia de culpa.
Foi esse deslizamento que me fez parar.
Porque, do ponto de vista da psicanálise, essa associação é enganosa — e, mais do que isso, produz um efeito clínico empobrecedor.
Do sofrimento à implicação
Em um texto clássico — Sobre o Início do Tratamento (1913) —, Freud descreve um momento decisivo do início da análise: aquele em que a queixa deixa de ser apenas uma reclamação dirigida ao mundo e passa a se tornar um enigma dirigido ao analista.
O sofrimento, nesse instante, muda de estatuto.
Ele deixa de ser algo que simplesmente acontece ao sujeito e passa a ser algo que interpela o sujeito.
Mais tarde, Lacan retoma esse ponto sob o nome de retificação subjetiva: o momento em que o sujeito reconhece que tem parte na cena que o faz sofrer. Não se trata ainda de ação, nem de responsabilidade moral — mas de uma mudança de posição. O sujeito deixa de se colocar como vítima passiva de algo externo e passa a se reconhecer implicado na própria cena.
Esse é o momento lógico que permite, em seguida, a implicação no sintoma.
O sintoma como estratégia
Quando falamos em implicação, falamos de algo muito preciso: reconhecer que há, no sintoma, um ganho, um gozo, um benefício — ainda que paradoxal.
O sintoma não é apenas sofrimento; ele é também uma solução inconsciente para um conflito interno.
É aqui que a ideia de sintoma como estratégia se torna decisiva.
Na medicina, pensamos a dor como algo a ser eliminado para que o organismo volte a um estado anterior, normal, sem restos. Na psicanálise, isso não é possível — porque esse estado “normal” simplesmente não existe.
O sintoma, em psicanálise, não é aleatório. Ele é uma construção. Uma tentativa — muitas vezes a única possível naquele momento — de resolver algo que, de outra forma, seria ainda mais insuportável.
Por isso, quando começamos a pensar o sintoma como estratégia, a pergunta muda.
Não é mais: “Como elimino isso de mim?”
Mas: “O que isso está resolvendo para mim?”
Essa pergunta muda tudo.
Responsabilidade sem culpa
No momento em que reconheço que o sintoma resolve algo, eu deixo de ser apenas uma vítima passiva. Eu me torno implicado. Eu tenho parte no gozo que ele traz. Eu sou, de algum modo, beneficiário dele.
É nesse sentido — e apenas nesse sentido — que podemos dizer que somos responsáveis pelo nosso sofrimento.
Responsáveis porque o sintoma é uma estratégia minha, ainda que inconsciente.
Responsáveis porque ele responde a um conflito que me diz respeito.
Responsáveis porque há um ganho secundário nesse arranjo.
Mas isso não é culpa. A culpa moraliza, paralisa, fixa o sujeito numa posição acusatória. A responsabilidade, ao contrário, abre trabalho.
Ela não diz: “você errou”.
Ela diz: “isso te diz respeito — o que você vai fazer com isso agora?”
O que muda na análise
Quando a responsabilidade é confundida com culpa, a psicanálise parece cruel.
Quando elas são distinguidas, algo se esclarece: a análise não acusa, ela desloca.
O tratamento bem-sucedido não elimina o conflito que deu origem ao sintoma — porque esse conflito é estrutural. O que muda é a margem de manobra do sujeito diante dele.
O sintoma continua sendo uma tentativa de solução, mas pode tornar-se uma solução menos custosa, menos sofrida, menos rígida.
Em vez de repetir a mesma estratégia, o sujeito passa a inventar outras.
Em vez de sofrer passivamente, passa a se implicar ativamente.
Em vez de culpar — a si mesmo e aos outros —, passa a se responsabilizar.
E é isso que cria a possibilidade de transformação.
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