por Marcos bulcao

Quando hoje se fala em singularidade, quase sempre a ideia que aparece é outra:
algo como “aquilo que eu sou de verdade”, meu lado autêntico, algo que estaria ali, esperando para ser descoberto.
Essa noção atravessa o coaching, as redes sociais e a cultura do “seja você mesmo”.
Mas não é dessa singularidade que a psicanálise fala.
Singularidade não é identidade
Para a psicanálise, o singular não é uma essência, nem um traço identitário profundo.
Ele não aponta para um “eu verdadeiro” a ser revelado.
O singular diz respeito a um modo de gozar.
Um modo particular, não replicável, que não se generaliza e não se transforma facilmente em narrativa bonita.
Não é algo que define um indivíduo como “especial”, mas algo que escapa ao universal, ao padrão, ao todo.
Por isso, o singular não se aplica bem a indivíduos tomados como categorias.
Ele se aplica melhor a situações, a ocasiões, a repetições estranhas que insistem.
O singular como exceção
O singular é sempre exceção ao todo.
Não confirma a regra — desorganiza a regra.
É aquilo que aparece nos detalhes, nos restos, nos pedaços soltos do discurso.
Muitas vezes, é justamente o que o sujeito não quer saber sobre si.
Não é raro que o singular seja vivido como algo incômodo, indigesto, pouco elegante.
Não há muita palavra para isso — ou, quando há, ela entra em conflito com o que o sujeito gostaria de dizer sobre si mesmo.
Como dizia Jacques-Alain Miller:
“O singular é um desvio sem norma.”
Sintoma como estratégia
Nesse ponto, o sintoma ganha outra leitura.
O sintoma não é um erro a ser corrigido, mas a melhor solução que o sujeito encontrou para lidar com o real da sua vida — com seu modo singular de gozar.
Isso não significa que o sintoma seja “bom” ou “indolor”.
Toda estratégia tem um custo.
A questão ética da psicanálise não é eliminar o sintoma, mas perguntar:
O que o sujeito vai fazer com isso?
E o sujeito suposto saber?
Aqui entra o sujeito suposto saber.
O analista não sabe — nem pode saber — a singularidade do sujeito.
Esse saber não está do lado do analista.
O que se supõe é que há um saber em jogo, mas ele pertence ao próprio sujeito, ainda que de forma opaca, fragmentada, não consciente.
Ao analista não cabe oferecer sentidos prontos, nem conduzir o sujeito a um universal confortável.
O risco da clínica é justamente o oposto: pasteurizar, normalizar, explicar demais.
O trabalho analítico opera criando interrupções, deslocamentos, intervalos.
Quebrando automatismos.
Reduzindo o sentimento de inevitabilidade.
É nesses intervalos que algo pode se rearranjar — inclusive o modo de gozar.
Uma aposta, não uma garantia
Tratar do singular não é buscar o melhor de si, nem o pior.
É lidar com aquilo que insiste.
Por isso, a psicanálise é uma experiência ética.
Ela não promete cura, nem autenticidade, nem harmonia.
Ela propõe uma aposta — com risco, para ambos os lados.
O que cada sujeito fará com a verdade que se revela não pode ser decidido de antemão.
E é justamente aí que o singular se sustenta.